Um hacker nem sempre precisa de malware sofisticado ou de uma exploração complexa. Por vezes, o truque está no hardware.
Um cabo USB de aparência comum pode ocultar componentes eletrónicos. Um dispositivo HDMI pode captar o que aparece no ecrã. Uma pequena caixa pode imitar uma rede Wi-Fi, enquanto outra pode fazer-se passar por um teclado e enviar comandos mais depressa do que uma pessoa conseguiria.
Estas ferramentas têm utilizações legítimas em testes de segurança e investigação. Mostram também porque a cibersegurança não se resume a palavras-passe e software. O acesso físico, as redes sem fios e os dispositivos que ligamos aos nossos computadores podem criar oportunidades para um atacante.
Eis algumas das ferramentas que ilustram esses riscos, juntamente com formas práticas de reduzir a sua exposição.
Os cabos O.MG podem ocultar uma segunda finalidade
Um cabo O.MG parece um cabo USB comum. No entanto, oculto no seu interior está hardware que lhe confere capacidades que um cabo normal não tem.
Um cabo modificado pode atacar um computador enquanto a pessoa que o utiliza pensa ter ligado um acessório normal. No entanto, um pequeno chip Wi-Fi na ficha pode receber um sinal e ativar o cabo, após o que este pode apresentar-se como um teclado e enviar comandos.
O hardware também pode registar o que uma pessoa escreve e enviar essa informação de volta a um agente malicioso através de Wi-Fi. Isso pode incluir palavras-passe, mensagens ou outras informações sensíveis. Investigadores de segurança documentaram ataques semelhantes(nova janela) que usam cabos de carregamento USB aparentemente comuns.
O risco é fácil de ignorar porque o cabo é familiar. Pode pedir um emprestado num aeroporto, escritório ou hotel sem pensar duas vezes. Um bloqueador de dados USB permite a passagem de energia para carregamento enquanto bloqueia a transferência de dados.
As redes Wi-Fi falsas podem parecer completamente reais
O WiFi Pineapple foi concebido para auditoria de redes sem fios, mas também demonstra um problema do Wi-Fi público(nova janela): um nome de rede não prova que a rede seja de confiança.
Imagine que está hospedado num hotel chamado Proton Hotel e se liga a uma rede com o nome inócuo «PROTON HOTEL GUEST WIFI». O nome parece credível, por isso liga-se. No entanto, é bem possível que um atacante tenha criado a rede e a tenha concebido para se assemelhar a uma legítima.
Se a sua ligação passar por infraestrutura controlada por esse atacante, este pode conseguir colocar-se entre si e a rede real e tentar observar ou manipular tráfego que não está protegido de outra forma.
Trate as redes desconhecidas com cautela e use proteção adicional ao ligar-se a elas. Uma VPN(nova janela) pode ajudar a proteger o seu tráfego quando a própria rede não é de confiança.
Os keyloggers de hardware registam o que escreve
Um keylogger de hardware(nova janela) pode ficar entre um teclado e um computador, registando as teclas premidas sem necessitar de instalar software.
O teclado pode continuar a funcionar normalmente, o que torna o dispositivo fácil de ignorar. Se alguém escrever uma palavra-passe, uma mensagem, um e-mail, informações de pagamento ou qualquer outra coisa através do teclado, um keylogger pode conseguir captá-la.
Estes dispositivos são suficientemente pequenos para se parecerem com hardware de computador comum. Se encontrar um ligado à parte de trás de um computador, pode presumir que foi instalado pelo departamento de TI.
Verifique de vez em quando o que está fisicamente ligado ao seu computador. Um adaptador ou dispositivo desconhecido merece uma inspeção mais atenta.
O Flipper Zero pode testar muitos sistemas sem fios
O Flipper Zero é uma ferramenta portátil multifunções que funciona com vários tipos de tecnologia sem fios(nova janela). Dependendo do sistema, pode ler, armazenar, clonar ou emular sinais usados por dispositivos RFID e NFC, comandos de infravermelhos, rádios sub-GHz e alguns dispositivos Bluetooth. Isso torna-o útil para a investigação de segurança. Também realça o quanto a tecnologia sem fios mais antiga pode revelar.
Se um ataque funciona ou não depende do alvo. Os comandos de chaves de automóveis e os sistemas de acesso mais recentes podem usar encriptação e códigos rotativos concebidos para impedir a repetição ou a clonagem. Os sistemas mais antigos ou mal protegidos podem ficar mais expostos.
Substitua o hardware obsoleto sempre que for prático, sobretudo quando as versões mais recentes oferecem uma segurança mais forte. Desligar o Bluetooth quando não o utiliza também pode reduzir a exposição sem fios desnecessária.
Um USB Rubber Ducky pode escrever por um atacante
O USB Rubber Ducky parece uma pen USB normal, mas um computador pode reconhecê-lo como um teclado. Isso permite-lhe enviar uma sequência programada de teclas premidas a alta velocidade. Para clarificar, enquanto um keylogger de hardware regista o que escreve, um Rubber Ducky pode fazer ele próprio a escrita.
Um dispositivo tratado como teclado pode conseguir abrir uma janela de comandos e executar ações com os privilégios disponíveis ao utilizador com sessão iniciada. Dependendo do computador e da carga útil, isso pode incluir transferir software malicioso(nova janela) ou aceder a informações armazenadas na máquina. (nova janela)
O ataque pode acontecer rapidamente, por isso um dispositivo USB desconhecido nunca deve ser tratado como uma unidade de armazenamento gratuita. Se encontrar uma pen USB misteriosa, deixe-a em paz.
Os dispositivos de captura HDMI podem ver o seu ecrã
Um Screen Crab foi concebido para ficar entre um dispositivo e o seu ecrã através de HDMI. O ecrã pode continuar a funcionar normalmente enquanto um dispositivo de captura regista o que está a ser mostrado. Um computador pode mostrar e-mails, documentos, informações financeiras ou palavras-passe. Uma sala de reuniões pode mostrar apresentações confidenciais ou documentos internos.
Verifique as ligações por trás do seu computador, monitor e equipamento audiovisual partilhado. Um adaptador HDMI desconhecido merece atenção. Em ambientes de maior segurança, os bloqueios físicos de portas e os selos de violação podem tornar mais difícil inserir dispositivos não autorizados sem serem notados.
As ferramentas RFID podem atacar sistemas de acesso mais antigos
Muitos escritórios, hotéis e outros edifícios usam cartões e comandos RFID ou NFC para acesso. Os leitores e gravadores RFID podem examinar certos cartões e etiquetas e, com sistemas mais antigos ou mais fracos, podem potencialmente copiar as informações necessárias para os imitar.
Isso não significa que todos os cartões de acesso possam simplesmente ser copiados. O RFID abrange muitas tecnologias, e os sistemas mais recentes podem incluir proteções concebidas para impedir este tipo de ataque.
Uma capa ou carteira com bloqueio RFID pode impedir que um cartão compatível seja lido enquanto está armazenado. Também ajuda evitar deixar um cartão de acesso sem vigilância ou à vista quando não está a ser utilizado.
O Bash Bunny pode fazer-se passar por dispositivos USB
O Bash Bunny pode ser configurado para se apresentar a um computador como diferentes tipos de hardware USB(nova janela).
Um computador tem de determinar o que é realmente um dispositivo ligado. Pode pensar que ligou uma pen, um teclado ou um cabo, mas o computador identifica o dispositivo com base no que este declara ser. É essa a fraqueza que estes dispositivos podem explorar. Um Bash Bunny configurado pode comportar-se de forma diferente consoante o alvo e a tarefa pretendida.
A defesa mais simples continua a ser uma das mais eficazes: não ligue dispositivos USB desconhecidos ao seu computador. Um dispositivo que parece inofensivo pode comportar-se de forma muito diferente do que a sua aparência sugere.
O conselho de segurança mais simples continua a ser importante
As ferramentas desta lista variam muito. Algumas foram concebidas para testes de segurança, enquanto outras podem ser usadas em ataques. O que têm em comum é que tiram partido da confiança num cabo, dispositivo USB, rede Wi-Fi, cartão ou ligação que parece comum.
Não é possível eliminar todos os riscos físicos ou sem fios. Pode, no entanto, dificultar a um atacante tirar partido das coisas em que os seus dispositivos foram concebidos para confiar.
Por vezes, isso começa com uma pergunta simples: sabe realmente o que acabou de ligar?





