A tecnologia de privacidade não tem de significar substituir todos os dispositivos que possui nem aprender a construir o seu próprio computador.

Há muitas pequenas alterações que pode fazer para ajustar a forma como utiliza a tecnologia. Pode manter informações offline, bloquear rastreadores em toda a rede de casa, escolher software que lhe dá mais controlo ou, até, transportar um sistema operativo completo numa unidade USB.

As ferramentas abaixo abordam a privacidade de formas diferentes, mas partilham uma ideia comum: pode decidir como a sua tecnologia funciona, em vez de simplesmente aceitar as definições predefinidas.

Criar um smartwatch que só faz o que quer

Muitos smartwatches são concebidos para funcionar em conjunto com uma aplicação e uma conta online. Os dados da atividade são recolhidos pelo relógio, transferidos para outro dispositivo e, potencialmente, enviados para os servidores de uma empresa.

Pode adotar uma abordagem diferente com Watchy(nova janela), um pequeno computador programável concebido para ser usado como um smartwatch de código aberto. Como pode programar o dispositivo, decide o que ele faz e que informações recolhe. Podia usá-lo para algo tão simples como contar os passos, sem precisar de uma conta nem sincronizar constantemente a atividade com um serviço remoto.

Os dados podem ficar no dispositivo ou ser transferidos para o computador. Também pode personalizar o relógio com funcionalidades, informações e ecrãs próprios. Isto torna o Watchy uma alternativa interessante às marcas de smartwatches mais omnipresentes, se quiser a funcionalidade de um dispositivo vestível sem entregar automaticamente o controlo da experiência a terceiros.

Usar o Flipper Zero para compreender a tecnologia sem fios

Uma quantidade surpreendente de tecnologia do dia a dia comunica sem fios. O abre-garagem, o sistema de acesso ao escritório, o comando da televisão e outros dispositivos dependem de diferentes tipos de sinais sem fios para comunicar. Na maioria das vezes, nunca vê nada disto a acontecer.

O Flipper Zero(nova janela) dá-lhe a possibilidade de experimentar alguns desses sinais. Pode ler, guardar e replicar certas comunicações sem fios, dependendo da tecnologia e da segurança envolvidas.

Por exemplo, pode usá-lo com um comando de infravermelhos compatível. O dispositivo consegue captar o sinal enviado pelo comando, armazená-lo e transmitir ele próprio o mesmo comando. Isso não significa que consiga desbloquear ou controlar tudo à sua volta. Com o que consegue interagir depende da tecnologia específica utilizada.

O verdadeiro valor é educativo. Em vez de tratar a comunicação sem fios como algo invisível que acontece em segundo plano, pode usar um dispositivo Flipper Zero para compreender como parte dela funciona na prática.

Manter a Wikipédia no bolso com o Kiwix

O Kiwix(nova janela) permite transferir grandes coleções de informação para poder aceder às mesmas offline. Um dos exemplos mais conhecidos é a Wikipédia, que pode armazenar localmente e pesquisar sem ligação à internet.

Isto pode ser útil quando viaja para locais com ligação pouco fiável, passa um período prolongado numa localização remota ou simplesmente quer aceder a informações sem as ter de pedir constantemente a um serviço online.

Há uma limitação óbvia: a biblioteca offline está tão atualizada quanto a versão que transferiu. Mas, uma vez o conteúdo armazenado no dispositivo, não precisa de uma ligação ativa para aceder ao mesmo.

É um lembrete útil de que não tem de depender da internet para toda a informação de que precisa. Às vezes, pode simplesmente manter a informação consigo.

Transformar um iPod antigo num leitor de música dedicado

Provavelmente já tem um dispositivo que reproduz música. O telefone pode transmitir em streaming milhões de músicas, recomendar algo com base nos seus hábitos de escuta e manter toda a biblioteca na nuvem. Mas se tudo o que quer é um dispositivo que reproduza a sua música, um iPod Classic antigo ainda pode dar conta do recado.

Com software alternativo como o Rockbox(nova janela), pode dar uma nova vida a um iPod Classic. Modificações de hardware também o podem atualizar com funcionalidades como o USB-C. O resultado pode ser deliberadamente simples. Coloca a sua própria música no dispositivo, como quem copia ficheiros para uma unidade USB, e ouve sem precisar de uma subscrição de streaming ou de uma conta.

Dessa forma, não há recomendações a decidir o que deve ouvir a seguir. Também não é preciso um serviço para controlar os seus hábitos de escuta, já que a biblioteca de música pode simplesmente permanecer no dispositivo. Pode até usar o armazenamento extra para coisas como números de telefone importantes ou outras informações que queira ter disponíveis quando o telefone não estiver disponível.

Às vezes, a privacidade significa escolher um dispositivo que faz menos.

Bloquear rastreadores em toda a rede de casa com o Pi-hole

O telefone não é o único dispositivo que se pode ligar a serviços de publicidade e de rastreio. O portátil, a smart TV, o tablet e outros dispositivos ligados podem todos fazer pedidos a servidores espalhados pela internet.

O Pi-hole(nova janela) permite filtrar alguns desses pedidos ao nível da rede. Pode executar o Pi-hole num pequeno computador, como um Raspberry Pi. Fica entre os dispositivos da sua rede e a internet mais vasta, verificando para onde estão a tentar ligar-se. Os pedidos para destinos na sua lista de bloqueio podem então ser travados antes de saírem da rede.

Como o Pi-hole opera ao nível da rede, pode usá-lo para cobrir vários dispositivos ao mesmo tempo. Isto pode ser particularmente útil em dispositivos como as smart TVs, onde instalar software convencional de bloqueio de anúncios pode não ser possível. Também pode ver os pedidos feitos pelos dispositivos da sua rede, incluindo os que o Pi-hole bloqueou.

Para ainda mais controlo local, pode combinar o Pi-hole com o Unbound(nova janela). Em vez de depender inteiramente do servidor DNS de outra empresa para resolver endereços de sítios web, o seu próprio sistema pode tratar mais desse trabalho e armazenar as respostas localmente. A rede de casa torna-se algo que pode inspecionar e gerir, em vez de uma caixa preta.

Se quiser experimentar, consulte o nosso guia que explica como configurar um Pi-hole(nova janela) e utilizá-lo para filtrar pedidos DNS em toda a sua rede.

Levar a sua própria rede consigo quando viajar

O Wi-Fi de hotel pode tornar-se incómodo quando tem vários dispositivos. Pode ter de ligar o telefone, o portátil, o tablet e outro hardware individualmente, e alguns hotéis limitam o número de dispositivos que se pode utilizar. Um router de viagem dá-lhe outra opção.

Em vez de ligar cada dispositivo diretamente à rede do hotel, liga o router ao Wi-Fi do hotel. Os seus dispositivos ligam-se então ao seu router. Isso significa que só tem de lidar com a rede do hotel uma vez. Os seus dispositivos podem permanecer ligados à rede que configurou, mesmo que viaje com vários deles.

Também pode executar uma VPN diretamente no router. O tráfego dos dispositivos ligados ao router pode então passar pela ligação VPN antes de chegar à internet. Um router de viagem é uma pequena peça de hardware, mas dá-lhe consideravelmente mais controlo sobre a forma como os seus dispositivos se ligam quando está fora de casa.

O nosso guia sobre como configurar uma VPN no seu router(nova janela) explica como funciona a proteção VPN ao nível do router e como esta pode cobrir dispositivos em toda uma rede.

Escolher um portátil que possa reparar e personalizar

Um portátil não tem de ser um sistema fechado que é substituído quando algo corre mal. Os portáteis Framework(nova janela) são concebidos para que possa abri-los, substituir componentes, atualizar peças e personalizar o hardware. Até as portas são modulares, permitindo trocar um tipo por outro quando as suas necessidades mudam. Essa filosofia estende-se ao software se utilizar Linux.

O Linux dá-lhe mais controlo sobre o que está a ser executado no seu computador e a maioria das distribuições Linux é amplamente de código aberto. Isso significa que o código subjacente pode ser inspecionado por programadores e investigadores, em vez de ter de depender inteiramente da descrição que uma empresa faz do que o seu software faz.

O software de código aberto não é automaticamente privado nem seguro. Mas ter acesso ao código subjacente dá-lhe outro nível de controlo sobre a tecnologia que utiliza.

Em conjunto, o hardware reparável e o software de código aberto permitem assumir maior responsabilidade tanto pelo computador físico como pelo software que nele é executado.

Transportar um sistema operativo focado na privacidade numa unidade USB

Pode transportar um ambiente de computação completo focado na privacidade sem precisar de transportar outro computador.

O Tails(nova janela) é um sistema operativo concebido à volta da privacidade que pode arrancar a partir de uma unidade USB num computador compatível. Em vez de usar o sistema operativo já instalado na máquina, pode iniciar o computador com o Tails.

O tráfego da internet é encaminhado através da rede Tor(nova janela), que envia as ligações por vários retransmissores para dificultar a determinação da sua origem. O Tails também foi concebido para ser amnésico. Ao encerrar o sistema, procura deixar o mínimo possível de vestígios no computador que estava a usar.

Isto torna uma unidade USB com o Tails algo semelhante a uma configuração de privacidade portátil. Pode levar o seu sistema operativo preferido consigo e usá-lo num computador compatível sem depender do sistema operativo habitual da máquina.

É um exemplo extremo do mesmo princípio subjacente a muitas das outras ferramentas aqui apresentadas: pode ter mais controlo sobre a tecnologia que utiliza, mesmo quando está longe dos seus dispositivos.

Se quiser compreender como o Tor e as VPN diferem, o nosso guia sobre Tor over VPN(nova janela) explica como as duas tecnologias fornecem diferentes camadas de privacidade.

Comece por uma única alteração

Não precisa de um smartwatch programável, de um iPod modificado nem de um sistema operativo focado na privacidade numa unidade USB para ter mais controlo sobre a sua tecnologia.

Cada uma destas ferramentas representa uma forma diferente de alterar uma predefinição. Pode manter os seus dados localmente em vez de os sincronizar automaticamente. Pode bloquear rastreadores ao nível da rede. Pode armazenar informações offline, escolher software de código aberto ou criar a sua própria rede quando viaja.

Também pode começar em muito menor escala. Verifique que permissões as suas aplicações atuais têm. Pense se uma aplicação realmente precisa de aceder à sua localização, ao microfone ou a outras funcionalidades do dispositivo. Veja que serviços exigem contas e que informações estão armazenadas remotamente.

Também não tem de mudar tudo de uma vez. Uma única decisão deliberada pode reduzir a quantidade de informação que entrega por predefinição.

A privacidade não exige uma mudança completa na forma como utiliza a tecnologia. Pode começar por decidir que uma parte da tecnologia que utiliza deverá funcionar de forma diferente.